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Matéria de Capa - Pheme amabilis - ed. 0 - Fev.2026
Attentio, habitus, scientia et studium:
Vamos falar sobre impercepção botânica?
SE A CIÊNCIA FOSSE PARA A TERAPIA... a década de 90 seria como aquele momento em que se torna possível dar nome aos problemas. Nessa época, entre a comunidade científica, alguns termos começaram a surgir: "Plantness" (algo como "ausência botânica" - em tradução livre), "Plant neglect" (negligência botânica), "Botany illiteracy" (analfabetismo botânico) e zoocentrismo. Em 1998, James Wandersee e Elisabeth Schussler cunharam, enfim, um termo que abarcaria tudo o que estava tentando ser dito até então: "Plant blindness". Aqui no Brasil, o termo chegou nos anos seguintes, traduzido como "Cegueira botânica".
Mas o que significaria, afinal, essa tal de "Cegueira botânica"? Em 2001, quando publicada a teoria, os autores James Wandersee e Elisabeth Schussler explicam que essa condição teria origens neurofisiológicas, uma vez que os olhos humanos processam uma pequena porcentagem do que se vê, dando prioridade a movimentos, cores e ameaças. Flores e frutos até podem chamar a atenção, mas as plantas, no geral, por não comerem humanos ou correrem atrás deles, são confundidas como plano de fundo.
Aqui no Brasil, a teoria foi traduzida, primeiramente, pelos autores Antonio Salatino e Marcos Buckeridge (2016), que além de ressaltaram os três aspectos da "cegueira botânica" defendidos por James e Elisabeth, eles também acrescentaram mais dois tópicos na discussão: a cultura (principalmente o ocidental e eurocêntrica), e a educação- onde estaria uma das origens da cegueira botânica. Mas nem sempre foi assim.
A ERA DOURADA DA BOTÂNICA
Em um artigo de 1996, o pesquisador David Hershey mostrou sob uma perspectiva histórica como o ensino de botânica se deu ao longo das décadas. Ele conta que já houve a “era dourada da botânica": quando a Biologia era ensinada de uma maneira menos compartimentalizada. Mas, como Nichols (outro cientista) propunha desde 1919, a partir do momento que zoologia e botânica se dividiram, a zoologia passou a receber mais investimento e atenção, sendo considerada sinônimo de biologia, ao passo que a botânica foi tendo seu espaço reduzido nas discussões científicas. Pelo menos essa é uma das hipóteses que tentam explicar o surgimento do desinteresse pelas plantas. Mas é difícil imaginar como as coisas podem ter mudado de um investimento imperial, em 1886, destinado á produção de réplicas em vidro de mais de 700 espécies de plantas para as aulas de botânica (expostas hoje no museu de Harvard <link aqui>), para uma crença de que essas mesmas plantas que mereciam um alto investimento para seu ensino não eram mais tão importantes assim.
Além disso, não só na educação a botânica teve sua era dourada, mas como ciência mesmo ela já foi muito mais valorizada. Como vimos nas páginas sobre o nome da revista, a botânica já foi chamada de "ciência amável" (scientia amabilis). Saber sobre as plantas possuía um valor intelectual e cultural entre as pessoas! Até Machado de Assis escreveu uma peça teatral chamada "Uma Lição de Botânica", no qual uma pergunta muito importante é feita por um dos personagens: "Mas, afinal, de que te serve saber botânica?".
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AMPLIANDO SIGNIFICADOS
Antes de responder essa pergunta, entretanto, vamos retomar ao significado da cegueira botânica. James, Elisabeth, Marcos e Antonio já tinham entendido que a questão da desvalorização das plantas não seria apenas culpa da neurofisiologia humana, mas também uma questão cultural e David hipotetizou que a construção do currículo de botânica pode ter levado a esse declínio da admiração pela botânica. Então será que "cegueira botânica" seria mesmo o termo mais apropriado?
Foi, então, em 2022 que uma autora canadense, Kathryn Parsley, com baixa visão propôs a mudança do termo. Se a questão não é apenas neurofisiológica, falar de "cegueira" poderia limitar seu significado, além de ter um teor capacitista (afinal, não é uma deficiência visual como as pessoas realmente poder ter). Para ampliar o significado desse fenômeno de distância com a botânica, Parsley sugeriu um novo nome: "plant awareness disparity", que traduzindo para o português no literal, seria algo como "disparidade na consciência botânica". No mesmo ano, uma cientista botânica brasileira chamada Suzana Ursi, que é uma das referências do tema no Brasil, junto com Antonio Salatino, lançaram uma nota científica propondo que o novo termo de Parsley fosse traduzido como: IMPERCEPÇÃO BOTÂNICA.
A impercepção botânica possui quatro esferas, segundo Kathryn: atenção, atitude, conhecimento e interesse relativo.
ATENÇÃO fala sobre a percepção fisiológica/cerebral que o conceito "cegueira botânica " havia se apoiado desde o início. De fato, estudos mostram que o cérebro humano está mais treinado a perceber animais em determinada altura dos olhos (nem tão embaixo, nem tanto a cima), o que limita o processamento de informações visuais sobre plantas em condições de perigo, principalmente.
ATITUDE é o foco principal de toda a mudança de percepção sobre as plantas. Quer dizer, tendo impercepção botânica a atitude sobre as plantas é negativa, é de desinteresse e incompreensão de que são seres vivos. O objetivo é que isso mude para o total oposto.
CONHECIMENTO não significa saber tuuuudo sobre botânica, pode respirar. Mas sim ter um conhecimento específico: da importância das plantas na biosfera. E valorizar essa importância! Materiais acessíveis e divertidos são essenciais nesse processo, segundo a autora.
INTERESSE RELATIVO é por onde o interesse pela botânica pode começar a ser motivado. Provavelmente por algo relacionado ao dia a dia das pessoas, relacionado à sua cultura!
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VAMOS FALAR SOBRE IMPERCEPÇÃO BOTÂNICA?
O problema tem, agora, um nome: "impercepção botânica". Mas outras questões surgem: como superá-lo? E por que é importante mudar esse cenário? "Afinal de que te serve saber botânica?"
Começando pela segunda pergunta: a distância com o conhecimento botânico significa não conhecer quase 80% do que existe de vida no planeta e que sustentam os outros 20%. Nós, plantas, somos alguns dos primeiros seres vivos a conquistarem o ambiente terrestre, possibilitando a existência de uma atmosfera rica em oxigênio, graças ao processo da fotossíntese, além de possibilitarem a manutenção climática para a existência de outros seres vivos, inclusive os animais. Nós formamos os biomas do mundo, regulam regime de chuvas, absorvem calor e gás carbônico (tóxico para humanos), além de proverem alimentos riquíssimos em energia. E fora os serviços que podemos prestar, é preciso lembrar que somos adaptadas a ambientes diversos, levando vida à lugares por vezes inóspitos. Modéstia à parte, o que seria do planeta sem nós?
É por isso que vocês humanos precisam ativar a percepção botânica! E é possível!
Respondendo a primeira pergunta lá de cima (“Como superar?): todo processo de mudança de pensamento leva tempo. É por isso que ao longo das edições dessa revista, conversaremos sobre botânica nos quatro campos principais: atenção, atitude, conhecimento e interesse. Vamos resgatar juntos o encantamento por essa parte da ciência, falando sobre ela!
Scientia amabilis através de uma pheme amabilis!
Espero você nas próximas edições!

Referências bibliográficas, no PDF.