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Matéria de Capa - Pheme amabilis - ed. 1 - Mai.2026

E SE AS PLANTAS FOSSEM ANIMAIS? 
A biodiversidade do filme "Como Mágica" e como ele pode contribuir para a percepção botânica (ou não)

Texto por: Ariane Leite do Nascimento

Bétulas-cervo, porcos-pinha, faias-lobo, ninfeias-arraia, peixes-folha, peixes-alga, cobras-raízes, aves feitas de folha e flor, gigantes feitos de pomares e micorrizas mágicas! - Essa é a biodiversidade da mais nova animação “Como Mágica” (“Swapped”, no original - “Trocados”), lançada na plataforma de streaming Netflix ® (não, isso não é uma propaganda). Nas últimas semanas, esse filme tem sido assistido por milhares de pessoas e já possui classificação nota 4,3 pelo Adoro Cinema, e 7,3 pelo IMDb - sites de crítica de cinema -, que são boas classificações.


O filme conta a história de dois amigos improváveis que, juntos, procuram os lendários “brotos-mágicos” para salvar a sua pele e a de todos do vale em que vivem, em uma narrativa repleta de aventura, reviravoltas e ensinamentos. A história é vivida por personagens únicos que chamam a atenção por unirem dois grupos de seres vivos que, geralmente, são considerados praticamente opostos!
 

Na edição de lançamento da revista Pheme Amabilis, nós falamos que uma das hipóteses para a origem da impercepção botânica foi a segregação nos estudos da Botânica e da Zoologia (antes estudados juntos pelas Ciências Naturais). Mas os personagens do “Como Mágica” fazem o contrário: unem plantas e animais, ao mesmo tempo, em criaturas zoo-botânicas!

Uma ave com folhas e inflorescências (conjunto de flores) na cabeça!

Um lobo-faia...

Como as árvores da vida real, o tronco é bem escuro e as folhas ficam avermelhadas no outono

Porco-pinha é bem autoexplicativo, né? Ele é feito de pinha, que é o conjunto de sementes do pinheiro

Um cervo que é uma bétula!

Não ironicamente, na vida real, há cervos que comem bétula.

Cobras-cipó!

Ursos pedra com musgos  em cima.

Pomares gigantes que andam. Essas florestas de árvores frutíferas, no filme, têm raízes que produzem o "broto-mágico". São chamados Dzo!

Ilustrações por

Lis Passos, 2026 

Arraias que são folhas de Nymphea (grupo das plantas aquáticas)

Um peixe feito de algas!

E peixes que imitam folhas!

​​No mundo real, também temos algumas criaturas que se assemelham a ideia do filme:

A lesma-do-mar Elysia chlorotica tem um corpo que parece uma folha e faz fotossíntese! Mas não é o corpo que possibilita a fotossíntese, mas sim a cor verde que é resultado da presença de cloroplastos (ferramentas realizadoras de fotossíntese), resquícios das algas que a lesma come! Graças a presença de alguns genes de algas das quais ele se alimenta, que foram inseridos ao seu DNA, o cloroplasto “roubado” mantém seu funcionamento normal. É como se ela tivesse a mesma receita que uma alga tem para fazer a fotossíntese.

Temos também outra lesma-do-mar, a Costasiella kuroshimae que se alimenta de algas cujos cloroplastos não são digeridos pela lesma. Os cloroplastos são, então, acoplados em seu corpo que o permite se beneficiar da fotossíntese.

COMUNICAÇÃO ENTRE ESPÉCIES

De alguma forma, esses fenômenos acabam funcionando como um tipo de comunicação entre elas, que alertam ou enganam predadores. No filme, quando as criaturas comem o “broto-mágico”, elas se tornam capazes de entender todas as outras, como se tivessem uma comum linguagem para se comunicarem. 

Também existem animais que mais parecem plantas do que “bicho”, e planta que mais parece “bicho” do que planta:

É PLÁGIO? NÃO!

É MI.ME.TIS.MO 

quando uma espécie parece outra.

É CA.MU.FLA.GEM.

quando a espécie se confunde com o ambiente

Os “brotos-mágicos” são produzidos pelos Dzos, que são como florestas inteiras de árvores que caminham juntas e cujas “patas” (que parecem patas de elefante), feitas de raízes, produzem os “brotos” que permitem a comunicação entre todos os seres.

“Tudo fala quando você come o broto de luz”

O "BROTO-MÁGICO" É UMA METÁFORA PARA AS MICORRIZAS QUE FAZEM UMA REDE DE COMUNICAÇÃO ENTRE ÁRVORES

Micorriza é o nome que se dá à associação entre diferentes espécies de fungos e as nossas raízes (ah sim, espécies de Comanthera também têm micorrizas nas raízes). Essa associação ocorre na maioria das espécies vegetais e funcionam através de uma relação mutualista, ou seja, os dois seres se beneficiam: os fungos nos ajudam a absorver mais água e nutrientes, e oferecemos em troca alguns produtos da fotossíntese para o fungo. Mas essas micorrizas também atuam como uma rede de cabos de energia, ou neurônios, que transportam sinais elétricos. Alguns cientistas chamam de “web da floresta”, já que tais sinais elétricos podem realizar um tipo de transmissão rápida de informações, como sinais de perigo, por exemplo, de uma planta à outra. Mas essa é uma área que ainda é bastante estudada pela ciência. Já há um consenso de que esta rede de fungos pode conectar florestas inteiras, mas ainda não há um consenso do quanto essa rede de fato encaminha informações a longas distâncias.

 

De qualquer forma, as micorrizas são apenas uma possibilidade de comunicação entre nós, plantas. Há outras  linguagens para nos comunicar, como, por exemplo, a liberação substâncias químicas no ar.

CONTRIBUIÇÃO PARA A PERCEPÇÃO BOTÂNICA (OU NÃO)

Todas essas temáticas abordadas no filme aumentam seu potencial educativo na introdução de temas relacionados à botânica ou mesmo para um estudo mais agregador de zoologia e botânica: comunicação entre plantas, diversidade, relação entre plantas e animais, mimetismo e camuflagem.

Há também um potencial sensibilizador da percepção humana sobre as plantas como seres-vivos. Isso, através da animalização das planta: é como se o broto-mágico possibilitasse aos animais a compreensão da linguagem das plantas ao passo que dá à elas olhos e bocas.

 

Por outro lado, é preciso tomar cuidado para não dar continuidade a crença de que seres vivos são só aqueles que têm cara e corpo bilateral. Como Antônio Salatino e Marcos Buckeridge, em 2016, mostraram, há uma maior compaixão dos humanos em relação a outros seres quando estes apresentam dois olhos, um nariz, duas orelhas e um corpo com quatro membros - ou seja, com um padrão corporal semelhante ao seu. Assim, uma planta com braços e olhos poderia ser mais apelativa para sua compreensão e cuidado.
 

Mas nós, plantas, temos uma lógica diferente de vida. Podemos não ter olhos, nariz e orelhas, mas percebemos o ambiente à nossa maneira! Não temos braços e pernas, mas nos movemos pelo tempo! Não usamos palavras, mas nos comunicamos com uma rede de fungos por energia!


Portanto, não é preciso que plantas virem animais ou animais virem plantas. Não precisamos, necessariamente, trocar de lugar para nos entendermos. Assim, como no filme, o que importa não é sermos iguais, mas convivermos em harmonia com as diferenças e reconhecer que é na (bio)diversidade que está a verdadeira comunicação.

Agora, prepare a pipoca e vamos assistir o filme!

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Referências bibliográficas, no PDF.

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